ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO DE CRIANÇAS HAITIANAS NO CONTEXTO ESCOLAR: DESAFIOS DA PRÁTICA DOCENTE

Resumo

Resumo O município de Santo André (SP) possui atualmente cerca de 900 imigrantes haitianos que chegam em busca de oportunidades de emprego digno e por melhores condições de vida. Como professora da rede municipal, percebemos que, cada vez mais, as escolas recebem crianças haitianas que não falam o português, as quais acabam apresentando dificuldades em seu processo de aprendizagem, sobretudo na alfabetização em língua portuguesa. Isso nos faz pensar tanto nas dificuldades enfrentadas por essas crianças, quanto na situação do professor que não está preparado para recebê-las, pois o curso de Pedagogia não oferece formação para o ensino do português como língua estrangeira, ou como língua de acolhimento, isto é, nos contextos de ensino e aprendizagem da língua do país que acolhe imigrantes em situações forçadas e refugiados. Diante dessa situação, e com vistas a compreender como esse novo desafio tem sido enfrentado pela escola, buscamos com esta pesquisa investigar as práticas pedagógicas de professores na alfabetização e letramento de crianças haitianas que chegaram recentemente ao Brasil e que ainda não compreendem o português. Para tal, como referencial teórico, nos apoiamos em estudos de Maria do Rosário Longo Mortatti, Magda Soares e Roxane Rojo que tratam do ensino do português como língua materna, sobretudo na alfabetização, desde concepções tradicionais até a abordagem recente da Pedagogia dos multiletramentos; como também em estudos de José Carlos Paes de Almeida Filho e Edleise Mendes, sobre o ensino e aprendizagem do português como língua estrangeira, que defendem a abordagem comunicativa e intercultural. Consideramos ainda estudos de Mirelle Amaral de São Bernardo e de Maria José dos Reis Grosso que defendem a abordagem do português como língua de acolhimento. O método da pesquisa é exploratório, de abordagem qualitativa, cujos dados foram gerados por meio de entrevistas narrativas com professores que frequentemente recebem crianças haitianas em suas turmas. Os resultados da pesquisa apontam, entre outros aspectos, que as práticas das professoras ainda estão muito fundamentadas em concepções tradicionais de ensino da língua materna, desconsiderando as práticas sociais mediadas pela linguagem, bem como a natureza intercultural do contexto em que atuam, com a presença de imigrantes que não dominam o português. Com isso, destacamos, dentre os vários desafios desse professor alfabetizador: a transformação de suas concepções e crenças, reconhecendo a importância de se alfabetizar os alunos sob a perspectiva do letramento e multiletramentos; a superação de visões etnocêntricas; a compreensão de que a barreira linguística não impede o acolhimento, a interação e a aprendizagem. Concluímos que, para isso, é essencial que as escolas que recebem imigrantes pensem na formação desses professores, uma formação que parta das experiências e práticas vivenciadas pelos professores em sala de aula e lhes propicie refletir sobre elas. Como produto da pesquisa, elaboramos um material didático com sugestões de atividades para o professor alfabetizador que recebe em suas turmas crianças estrangeiras que ainda não dominam a língua portuguesa.


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